PF investiga deputado Cezinha de Madureira por suspeita de intermediar interesses junto a ministros do STF

Mensagens citadas na investigação mencionam contatos com Nunes Marques e outros ministros. PF apura suspeitas de tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro

A Polícia Federal deflagrou, nesta segunda-feira (14), uma operação contra o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). O parlamentar é investigado sob suspeita de atuar na intermediação de interesses junto a ministros de tribunais superiores.

A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e apura possíveis crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Segundo a investigação, a estrutura suspeita teria negociado influência sobre integrantes do Judiciário em troca de pagamentos elevados vinculados ao resultado de processos.

A decisão que autorizou as buscas reúne mensagens nas quais Cezinha afirma manter contatos com ministros do STF para tratar de processos judiciais. Entre os nomes mencionados está o ministro Kassio Nunes Marques.

A PF, no entanto, ressalta que Nunes Marques não é investigado nem tratado como suspeito. A apuração também informa que não há, nos elementos reunidos, notícia de solicitação, aceitação ou recebimento de vantagem indevida por qualquer magistrado citado nas conversas.

Deputado mencionou conversa com Nunes Marques

Um dos episódios analisados pela PF envolve a Reclamação 76.831, que tramitava no Supremo Tribunal Federal.

Em 12 de junho de 2025, a advogada Mariângela Fialek encaminhou a Cezinha um memorial relacionado ao processo e pediu informações sobre o andamento das tratativas.

Durante a conversa, o deputado afirmou que o ministro Kassio Nunes Marques havia marcado uma videoconferência com ele para as 16h.

“Eu havia pedido a ele para me atender hoje cedo, ele não consegui me atender, marcou para falar comigo por vídeo às 16:00 / Ministro Kassio / Entendeu? / Ai vou pedi a ele”, escreveu Cezinha, segundo a investigação.

Na sequência, o parlamentar afirmou que enviaria o número do processo antes da conversa:

“Vou mandar já já antes de falar as 16:00 com ministro Kassio / Foi até bom que ele vai ver se de fato eu preciso pedir expressamente.”

Para a PF, as mensagens indicariam, em análise preliminar, que Cezinha pretendia formular um pedido pessoal ao ministro sobre o processo.

Advogada encaminhou memoriais ao parlamentar

Dias depois, em 18 de junho, Mariângela enviou ao deputado três memoriais relacionados à Reclamação 76.831.

Os documentos eram endereçados aos ministros Nunes Marques, André Mendonça e Gilmar Mendes.

Entre os arquivos encaminhados estava o documento identificado como “Memorial Rcl 76831 – Min. Nunes Marques.pdf”.

De acordo com a investigação, as conversas revelariam um padrão de atuação no qual advogadas encaminhavam peças e memoriais ao parlamentar, que posteriormente afirmava ter “falado”, “despachado” ou “pedido” providências a ministros.

A PF também identificou contratos de honorários advocatícios com pagamentos condicionados ao êxito nos processos.

Reclamação envolvendo prefeita de Beberibe tinha honorários de R$ 500 mil

Outro caso analisado pela investigação envolve a Reclamação 79.545, relacionada à prefeita de Beberibe, no Ceará, Michele Cariello de Sá Queiroz Rocha. O processo também era relatado pelo ministro Kassio Nunes Marques.

Segundo a decisão de Flávio Dino, um contrato para acompanhamento da reclamação no STF estabelecia honorários de R$ 500 mil, com pagamento previsto após o julgamento.

Em 18 de junho de 2025, Mariângela encaminhou a Cezinha uma certidão do processo e perguntou:

“Não mandaram informações. Vc despachou?”

O deputado respondeu:

“Despachei sim / Ontem”.

Cinco dias depois, Valéria Rodrigues Linhares, advogada e esposa do parlamentar, escreveu em uma conversa:

“Reclamação da Michelle – Beberibe – conclusa pro Ministro Nunes Marques.”

As mensagens foram incluídas pela PF entre os elementos que sustentam a suspeita de que Cezinha atuaria como intermediário em processos acompanhados pelas advogadas.

Contrato previa até R$ 3 milhões em honorários em outro processo

A investigação também identificou conversas relacionadas à Reclamação 81.608, igualmente relatada por Nunes Marques.

O processo envolvia Denis de Souza Macedo, ex-secretário de Educação de Belford Roxo (RJ), preso em fevereiro de 2025 durante uma investigação da PF sobre supostos desvios de recursos do Fundeb e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Segundo a decisão judicial, um contrato previa R$ 1 milhão em honorários para a sociedade de advocacia de Valéria em caso de êxito.

Outro instrumento relacionado ao mesmo processo estabelecia o pagamento adicional de R$ 2 milhões caso fosse obtida a liberdade de Denis, ainda que com a imposição de medidas cautelares.

Somados, os valores poderiam chegar a R$ 3 milhões.

Mensagens mostram insatisfação com resposta do gabinete

Em agosto de 2025, após uma resposta do gabinete de Nunes Marques a um pedido de audiência enviado por e-mail, Mariângela demonstrou insatisfação durante uma conversa com Cezinha.

O deputado respondeu inicialmente:

“Calma”.

Em seguida, escreveu:

“Deixa eu ir lá sentir”.

Uma semana depois, Cezinha voltou a pedir uma imagem do pedido de agenda.

Para a PF, as mensagens indicariam a continuidade da atuação pessoal do parlamentar em torno do processo.

Investigação apura possível venda de influência

A operação busca esclarecer se o deputado teria utilizado seus contatos com integrantes de tribunais superiores para intermediar interesses de clientes de advogadas, mediante contratos de honorários vinculados ao resultado de processos.

A apuração, contudo, não aponta, nos elementos mencionados, que os ministros citados tenham solicitado ou recebido vantagens indevidas.

O caso permanece sob investigação, e as suspeitas deverão ser esclarecidas a partir da análise das mensagens, contratos e demais documentos reunidos pela Polícia Federal.